quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Um bom ano

Começou estranho. Por opção passei a virada em casa. Festas caras e zero disposição para programas de índio ou lugares com muita gente. Dormi. Acordei e fui ao cinema no primeiro dia do ano. Meu programa predileto para fazer sozinho. Já não me lembro o que vi.
Faltava entregar o último episódio da série. Agora, no final, não consegui fechar o primeiro de outra. Que tudo seja mais simples no próximo que começa daqui a pouco.
Dois projetos selecionados numa chamada pública. Memórias de uma cidade sem cinema há quase 30 anos; fotógrafos e suas memórias das manifestações do ano passado.
Um concurso de vídeos inspiradores. Três minutos sobre como seria minha vida sem a paralisia cerebral que mudaram minha vida. Mais de 26 mil visualizações na internet. Foi para a TV com um corte. Não pode palavrão em rede nacional às 10h da manhã. Virei o amigo da apresentadora. Ganhei três irmãos, pai, mãe, avós, tios, primos... Dei mais valor à família oficial. Sem eles eu não existiria.
Meninas, mulheres. Reencontros, rupturas e surpresas. Uma professora me mostrou ser uma besteira meu maior medo. Não, a deficiência não é uma barreira para quem quer estar comigo. Aos poucos vou aprendendo a vencer meu maior adversário, eu mesmo.
Dei palestras. Algo inédito até então. Na primeira, estava supernervoso. Passou quando comecei a falar para aquelas carinhas atentas de nove anos de idade. Na última visita à escola ouvi: 'Oi, Daniel! Tira uma foto comigo?' Fiz a selfie e ri.
Voltei às paredes e muros. Veio um convite para um campeonato em São Paulo. Treinei para ele. Estava apreensivo. Subi. Cada agarra conquistada parecia gol do Flamengo. Fiquei feliz com o resultado. Ganhei medalha e até, o que ainda soa estranho para mim, fãs.
Termina bem. Projetos antigos prontos para virarem realidade. Novas ideias. O trabalho reconhecido. Mais passos de editor. Outros de diretor. Novos de roteirista. Pessoas interessantes. A certeza de que tenho que fazer dois filmes. E uma frase. Não basta estar; há que se fazer parte.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Quatro

Fiz 30 quatro meses atrás e esses quatro foram talvez os mais intensos dos 30
Ainda aos 29, um teaser chacoalhou tudo. De março a julho são quase 25 mil visualizações. 
Entre compartilhamentos e pedidos de amizade, alguns dos comentários mais importantes vieram de perto. Primos, tios, pai, mãe, irmã e amigos me emocionaram e ajudaram a espalhar Como seria? Nessa onda, ganhei três novos irmãos e uma segunda família no Rio. No último sábado, passei o dia com eles. Em agosto, finalmente, todos vão se conhecer.
Onda grande que me levou, com cortes, até o Encontro. O amigo da Fátima não podia xingar os que o chamaram de coitadinho às 10 da manhã!
Dia feliz esse em que, depois de aparecer na TV, um antigo projeto começou a ganhar vida. A série deve nascer em 2015.
Codirigi um, editei outro e fiz roteiro e montagem de um terceiro curta documentário. Até o final do ano a produtora deve finalizar mais três.
Luz Guia, o primeiro assinado pela SeuFilme, vai ser exibido no Rio de Janeiro, em agosto, depois de passar por Berna e pela Cidade do México.
Fui campeão brasileiro de escalada e percebi que, pelo menos por hora, o tempo de competir passou. Hoje à noite tem treino pra começar bem a semana!
Descobri que não há ninguém melhor do que eu na arte de se interessar por meninas enroladas com ex-namorados. Chorei na primeira. Na última, achei graça.
Como seria? ainda me fez ser reconhecido na rua. Me preparava pra descer do ônibus quando uma moça disse:
- Te vi na TV!
- É mesmo?! No Encontro da Fátima? - perguntei.
- Isso! Achei o máximo!
- Que bom que gostou!
- Quando entrei no ônibus e te vi, pensei "nossa! Ele é meu vizinho! Que legal!"
Nos despedimos. Eu ri!!  
Dei adeus também à ideia do teaser. Com música nova feita especialmente para ele, o agora curta está inscrito em diversos festivais. Vida longa ao filme! E um pouco mais de tempo para preparar o longa
É... que venham outros quatro como os que passaram!

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Como seria?

            Dias atrás, conversava com um amigo. Num dado momento disse não saber se a vida teria tanta graça caso não tivesse a paralisia cerebral que afeta minha coordenação motora. Depois de muito pensar a respeito, eu afirmo: Não, não teria a menor graça.
            Impossível dizer como seria. Certamente teria sido mais fácil começar a andar. Um grande colégio de Barra Mansa não teria achado difícil me ter como aluno. Poderia ter sido goleiro. Não teríamos gastado todo esse dinheiro com minha reabilitação. Andaria de skate, talvez. Não seria confundido com bêbados e doidões. Pode ser que tivesse mais desenvoltura e não travasse na hora de chegar nas meninas. Correria. Saltaria. Subiria em árvores. Faria um monte de outras coisas que toda criança faz. Mas não seria eu.
            Não teria feito papel de minhoca numa peça teatral no colégio. Não teria sido o centro das atenções quando cheguei com uma máquina de escrever elétrica para ser alfabetizado. Não conheceria meus terapeutas, pessoas tão importantes durante todos esses anos. Não saberia como é gostosa a sensação de fazer determinado movimento pela primeira vez. Não teria tido o prazer de mandar tomar no cu aquele que me chamou de coitadinho. Não teria demorado quase um ano pra tirar minha carteira de habilitação. Não riria dos que pensam que estou chapado de ecstasy, LSD e outras drogas. Possivelmente não escalaria. Não seria jornalista, editor, cinéfilo e tampouco documentarista. E não estaria embarcando nessa (muito boa) viagem a três que se chama SeuFilme Produções Audiovisuais LTDA.
            Não sei como seria. E não quero saber.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Lula entre atos

Todos observamos. Documentários dependem de longos períodos de observação. O documentarista testemunha um evento e dá ao espectador sua impressão, seu parecer sobre o que foi captado pelas lentes da câmera. Suas intervenções podem ser muito presentes como em Santiago, obra-prima de João Moreira Salles, na qual o diretor assumiu sua posição manipuladora da realidade. Seu grande mérito foi ter exposto aos espectadores a forma como dirigiu as filmagens em 1992 e sua reflexão, sua autocrítica, treze anos depois, sobre o modo como conduziu o filme.

Exemplos menos radicais de intervenção aparecem em filmes como Crônicas de um verão, de Jean Rouch e Edgar Morin, considerado o marco inicial do cinema verdade. Nele, os diretores usaram técnicas presentes no cinema direto, sequências encenadas e, assim, experimentaram várias formas de fazer o filme. No final, após uma projeção do documentário para as pessoas que tinham participado das filmagens, os diretores promoveram um debate onde todos expuseram suas opiniões sobre o que viram. Antes de acabar, Rouch e Morin ainda fizeram uma reflexão sobre o filme que tinham feito.

Em Primárias, de Robert Drew, filme expoente do início do cinema direto, as intervenções do realizador e sua equipe são as menores possíveis. As novas tecnologias da época permitiram a Drew experimentar novas linguagens. Partindo da ideia da ‘mosca na parede’, o diretor utilizou muitos planos-sequência e nenhuma música inserida na pós-produção, para acompanhar as prévias para a escolha do candidato do partido democrata que disputaria as eleições para a presidência dos EUA, em 1960.

Também um “filme de presidente”, Entreatos é, junto com outros documentários de João Moreira Salles como Nelson Freire ou a série Futebol, co-dirigida por Arthur Fontes, basicamente, um longa-metragem de observação. O diretor e sua equipe acompanharam os 33 dias anteriores à eleição de Lula para a presidência da república, em 2002. Numa análise superficial, diríamos que o longa se aproxima do cinema direto americano da década de 1960, estilo “fundado” pelo já citado Primárias, de Robert Drew.

Mas o que diferencia Entreatos dos outros é seu personagem principal, Lula. Figura carismática, o ex-presidente se apresenta e representa de uma maneira que poucas pessoas conheciam. Como disse Elio Gaspari em artigo publicado no site Observatório da Imprensa, em 16/11/2004, “Salles e Walter Carvalho, o bruxo da câmera, registraram coisas que os jornalistas políticos não perceberam ou não conseguiram expressar.”. Personagem e filme vão além, muito além dessa breve análise.

O que, a meu ver, engrandece Entreatos, é justamente seu corte final, a razão para seu titulo. Em entrevista publicada em novembro de 2004 e reproduzida no encarte do DVD do filme, Salles disse: “na edição, para a minha surpresa, percebi que o material público e o material privado tinham identidades muito diferentes. Não conseguiam conviver no mesmo filme”. Ao deixar de fora todos os momentos públicos (atos) da campanha, o documentário pôde mostrar um lado pouco conhecido dos que estavam envolvidos na corrida eleitoral, suas discussões e bastidores. “Não são momentos memoráveis para quem os viveu. (...) Se esses momentos ganham alguma importância, é por estarem inseridos numa narrativa, numa construção que é própria do documentário”, disse o diretor.

Aparece aí o Lula mais próximo daquilo que ele realmente é, o que não significa que o futuro (ex-)presidente não estivesse representando para as câmeras. Fernão Pessoa Ramos, em seu “Mas afinal... o que é mesmo documentário?”, diz que “...a presença da câmera e seu equipamento flexionam, em alguma medida, a atitude de Lula. Podemos vislumbrar, em diversos momentos do filme (...) a atitude exibicionista para a câmera provocada pela situação de tomada, tão comum em documentários de estilística direta.”. Walter Carvalho, em entrevista reproduzida no encarte do DVD, conta que “quando eu entrava com a câmera no camarim, por exemplo, ele [Lula] percebia e logo começava a conversar com alguém sobre um assunto que supunha ser interessante para o filme”. Nesse sentido, o diretor afirma não acreditar numa realidade intocada, inume à presença da câmera. Para ele, “teatro e verdade acontecem ao mesmo tempo. (...) A presença da câmera catalisa determinadas coisas, desperta nele [Lula] o desejo de falar sobre certos assuntos, o que é muito bom para o filme. (...) O que a câmera estimula não deve ser recusado sob a alegação de que é teatro. O teatro interessa.”. E esse “teatro” produz cenas memoráveis como a conversa, dentro de um jatinho, com José Alencar. A certa altura, Lula diz, ‘Aquele palácio [Alvorada] é triste porque o Fernando Henrique Cardoso nunca jogou bola. Ele não dança’. ‘Não bebe um gole’, emenda Alencar. ‘Não bebe um gole’, repete Lula.

O filme também possui vários momentos vazios, em que, a primeira vista, nada de importante acontece. Planos-sequência de longas conversas no avião, ou o trecho em que, se preparando para a gravação de um programa eleitoral, Lula diz que uma de suas maiores frustrações é não saber batucar. Momentos como esse, somados às sequências em que a equipe é percebida, afastam Entreatos do cinema direto mais ortodoxo.

No início do filme, Salles explica o contexto de produção, introduz o filme através de voice over. A equipe volta a “aparecer” quando, numa reunião de preparação para o debate do primeiro turno, na Rede Globo, José Dirceu, à época presidente do PT, pergunta, se dirigindo para a câmera, quem eram aqueles, o que faziam ali e se estavam gravando. Dirceu até então nada sabia sobre o documentário. “Ali pensei que o filme tinha acabado. (...) O momento era de fato muito sensível. Qualquer movimento do Walter Carvalho em direção, por exemplo, a um documento sobre a mesa poderia parecer um interesse especial por aquele documento. Felizmente conseguimos superar o imprevisto”, disse o diretor. Em outras sequências a diretora de produção, Raquel Zangrandi, aparece em quadro e Walter Carvalho interage com Lula no avião.

O momento menos “direto” do filme e também o único em que a montagem foge de sua estrutura cronológica acontece quando a equipe entrevista o que achavam ser um amigo de Lula, que havia pegado uma carona no avião que levava a equipe do filme de Florianópolis para Porto Alegre. Ao longo da conversa, o jovem se revela apenas um admirador do candidato que, depois de perder o voo, encontra Lula no saguão do aeroporto e pede a ele um abraço para salvar seu dia. Depois de uma breve prosa, é convidado a viajar no jatinho da equipe. No resto do filme a câmera permanece quase que oculta, apenas observando o que acontece.

O estilo “direto” do filme é também reforçado através da montagem de Felipe Lacerda. No osso, sem efeitos, os cortes dão ritmo próprio ao filme. O espírito observador das imagens captadas por Walter Carvalho é elevado à máxima potência no corte final de Entreatos. Em alguns momentos ’lenta’, com planos muito longos, a montagem nem por isso deixa o filme chato ou arrastado. O importante é perceber como essa já citada característica comum a alguns dos últimos documentários de João Salles, a presença de situações “mortas”, em que nada acontece, se tornam importantes dentro da narrativa fílmica. Fica clara a sensibilidade e sintonia de Walter Carvalho em relação àquilo que era capturado, em clima de guerrilha, por suas lentes. “A câmera seguia o Lula ininterruptamente, muitas fezes sem dar tempo de mudar o filtro, de bater o branco, etc. Tecnicamente, portanto, a fotografia de Entreatos é uma fotografia impura, mas as impurezas e a desconstrução técnica estão a serviço do filme”, disse, em entrevista, o fotógrafo.

Por tudo isso, Entreatos, ao mesmo tempo em que se aproxima do cinema direto de Drew, ganha uma dimensão maior ao usar, em sua montagem final, “ruídos” como a entrevista do carona no avião da equipe de filmagem, ou o momento de tensão com José Dirceu na reunião preparatória para o debate do primeiro turno das eleições de 2002. Ao contrário do que pensou João Salles, o incidente com Dirceu não significou o fim das gravações e no resto do filme a equipe pôde estar, aparentemente, em todos os lugares em que desejava. Quando não foram autorizados, como no dia do resultado do segundo turno, a câmera foi feita por terceiros. Foi Mariana, filha do então deputado federal Aloizio Mercadante, quem filmou os instantes que precederam a confirmação de que Lula era o novo presidente do Brasil. Já com Walter Carvalho na câmera, a cena final de “Entreatos” é um resumo do filme em todos os seus aspectos. O plano-sequência começa com Lula e um grupo de pessoas entrando no elevador do hotel. Walter hesita e, quando a porta está quase fechando, é chamado para dentro. O elevador desce até o andar térreo e todos saem. Lula se dirige ao saguão do hotel. A câmera o segue de perto quando é engolido por um mar de repórteres, microfones e equipes de TV. Depois de filmar a luta de Lula para se livrar da turba, Walter lentamente se afasta e o presidente eleito desaparece no meio dos jornalistas e o filme termina em um lento fade out da imagem. Tensão, guerrilha, momentos vazios e de extrema sensibilidade, juntos, num mesmo plano. Entreatos é isso.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Real... ou não

Trabalho feito para a Pós em Cinema Documentário, na FGV. Reflexões sobre a frase de Antonioni.


“Não nos iludamos: no mesmo momento em que nos inspira, a realidade se torna nosso inimigo número um”. (Michelangelo Antonioni, Comincio a capire, Valverde: Il Girasole Edizioni, 1999.)

Real... ou não

Realidade. Do latim realitate e, de acordo com o Dicionário Brasileiro Globo, qualidade do que é real; aquilo que existe de fato. Mas e diante das câmeras? Será que a realidade, quando captada pelas lentes do documentarista, é a mesma de quando não há alguém filmando? Podemos acreditar que tudo o que vemos num documentário é real e, consequentemente, representa o que de fato existe? Hoje, a resposta para as duas perguntas é a mesma: não. Mas já foi diferente.

No final do século XIX e no início do XX, o cinema dava seus primeiros passos e, ao redor do mundo, vários realizadores filmaram o cotidiano de cidades, revelaram povos desconhecidos, etc. Os filmes eram observações neutras de um evento, na maioria das vezes feitos de um só plano e não tinham narrativas elaboradas. Queriam apenas mostrar o desconhecido. Não contavam histórias. Retratavam a realidade sem interferências. Tinham apenas valor documental.

É “Nanook do norte”, de Robert J. Flaherty, considerado o primeiro longa-metragem documentário, que simboliza a mudança. O diretor recriou, reencenou o cotidiano de um grupo de esquimós, para mostrar ao público como era a vida daquele povo que vivia em regiões próximas ao Círculo Polar Ártico. Um exemplo aparece quando Flaherty, que não queria mostrar que os esquimós caçavam usando armas de fogo, pede que Nanook e seus companheiros matem uma morsa usando arpões. O diretor construiu a “realidade” que aparece nas telas como sendo o modo de vida dos esquimós, quando, na verdade, eles já não faziam várias das atividades filmadas há muitos anos. Ao mesmo tempo em que inspirou Flaherty, o real se tornou seu grande inimigo e, para driblá-lo, o diretor utilizou procedimentos de ficção, o “de novo”, para chegar ao resultado que queria.

Quase um século depois, documentaristas continuam vendo, testemunhando e observando diferentes pessoas, lugares, culturas e crenças, em busca de novas formas narrativas. Em todos os casos, seja retratando o outro ou a nós mesmos, a realidade inspira e impõe inúmeras dificuldades.

Me inspiram muito filmes que brincam com o real. “Jogo de cena”, de Eduardo Coutinho é um deles. Histórias reais, contadas por mulheres reais, são reencenadas, repetidas por atrizes, todas no mesmo cenário sem cenário: uma cadeira no palco de um teatro, de costas para as outras cadeiras (vazias) da platéia. Os depoimentos se repetem, ora contados pelas mulheres “reais”, ora pelas atrizes. A cada ida e volta o filme cresce. Já não se pode mais afirmar se o que foi dito é real ou não. Junto às interpretações, Andrea Beltrão e Marília Pêra contam o que sentiram ao reencenarem as histórias daquelas mulheres “de verdade”. Realidade e ficção, juntas, prendem cada vez mais o espectador que, em determinado momento, para de querer adivinhar o que é real ou não e se deixa levar pela magnífica construção do filme. E esse não saber instiga, incomoda, faz pensar. Brincar com a realidade, saber usar a seu favor o excesso de representações, faz de “Jogo de cena” um grande filme. Como o próprio Coutinho disse certa vez: “pra se mudar a realidade, para criticá-la, a primeira coisa que se deve fazer é aceitá-la como ela é... pelo simples fato de existir”.

Mas não é só o real que existe. Estamira, personagem do filme homônimo de Marcos Prado, diz que “Tudo o que é imaginário tem, existe, é”. Enigmática, a frase é uma síntese da personagem e do documentário. A partir dela, juntando realidade e imaginação, chegamos a um ponto chave, o de representação. Num primeiro momento pode não parecer, mas todos representamos, o tempo todo. Real e imaginário unidos, ainda que inconscientemente. Nós, os únicos que sabemos como realmente somos, usamos a imaginação para representarmos, ou nos apresentarmos, da forma como queremos perante o mundo. Se fazemos isso normalmente, sem percebermos, quando temos consciência de que somos observados, a “estratégia” é elevada à décima potência. Usamos a imaginação para criarmos uma imagem de nós mesmos. A que gostaríamos de passar para quem nos ouve ou vê. Para isso, mudamos, melhoramos, tentamos convencer o outro de que tudo o que dizemos é real, ainda que isso seja somente a representação de algo que de fato não existe.

Tempos difíceis esses, em que quem está falando acha que sabe o que queremos ouvir e, diante da câmera, muda seu jeito de ser e agir. Para ele, o importante é aparecer bem, bonito, na tela do cinema ou da TV, dizer o que acha que queremos ouvir. Temos que ganhar a confiança, fazer com que fique à vontade, para que a representação seja a menor possível. E se não quisermos, assumamos nossa posição manipuladora da realidade como fez João Moreira Salles, em “Santiago”. O grande mérito de Salles foi ter exposto aos espectadores a forma como dirigiu as filmagens em 1992 e sua reflexão, sua autocrítica, treze anos depois, sobre o modo como conduziu o filme. Por isso, ter o controle da situação, sempre que possível, e saber o que estamos fazendo na hora da captação é essencial para tomarmos as decisões corretas e sermos capazes de mudar ou assumir novos papéis nos filmes que vamos fazer. Ou não.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Transitivo Direto

Nos últimos dias tenho pensado muito em um verbo que volta e meia aparece na minha vida. Há uns 10 dias, fui entrevistado para um vídeo institucional da TV Globo. Pela primeira vez pude falar o que realmente penso a respeito de todo o processo de edição das matérias e que, hoje, me sinto totalmente preparado para fazer tanto a de imagem quanto a de texto. Disse também que tenho uma paralisia cerebral discinética e que a razão pela qual eu ganhei esse "presente" é desconhecida.

O fato é que a paralisia nunca me impediu de fazer nada, ou quase nada. Meus pais tiveram, e ainda têm, um papel importantíssimo nessa caminhada. Tive, desde pequeno, acesso aos melhores tratamentos disponíveis no Brasil. Quando alguma dificuldade aparecia a equipe entrava em ação para achar o melhor caminho e contornar, ultrapassar, passar por cima do obstáculo. Foi assim que a máquina de escrever entrou na história, para facilitar minha alfabetização. Ao longo de quase 20 anos, três Olivettis, elétricas, passaram pelas pontas dos meus dedos, do CA até a entrega do diploma na PUC-Rio, em 2008.

As velhas máquinas ficaram para trás. Mas o verbo, esse, de 10 dias atrás, acompanhou meu crescimento e sempre estará comigo. É presença constante nas sessões de fisioterapia e terapia ocupacional, na escalada, e até, como minha mãe sempre diz, nas relações pessoais, no meu dia-a-dia. O problema, e principal motivo dessa reflexão, é a forma de usá-lo. Para chegar aqui, enfrentei dificuldades, barreiras, obstáculos, et caetera. Uns foram fáceis de vencer. Outros, como a própria paralisia, sempre estarão comigo e, por isso, o duelo será eterno. Por isso, a primeira frase de minha apresentação no institucional - "Daniel Gonçalves superou a paralisia cerebral para se formar em jornalismo..." - está mal colocada. Como disse acima, a atetose sempre estará comigo. Impossível superá-la por completo. De tempos em tempos ela dá sinal de vida e, quando isso acontece, tome fisioterapia para botar as coisas no lugar.

Hoje, morando sozinho, formado, trabalhando e cheio de ideias na cabeça, o mais difícil de superar é a desconfiança de pessoas que não me conhecem em relação ao meu trabalho e às minhas capacidades. Na hora de a onça beber água, em três entrevistas finais de estágio na própria Globo, em 2007, não fui o escolhido. Ainda em 2007, na Band, um dos meus chefes ficou com medo de eu não dar conta do recado e, sem nem sequer ouvir minha opinião, me deixou de fora da cobertura in loco dos Jogos Panamericanos daquele ano.

Por isso, eu, Daniel Gonçalves, para chegar aonde cheguei e ir além (esse é o objetivo), superei, suplantei e ainda vou superar e sobrepujar desconfianças, medos, receios e até preconceitos. Como na primeira vez que respondi a um comentário a meu respeito. Ao me ver andando, um homem comentou com sua mulher: "Tadinho dele...". E eu, aos dez anos, mandei na lata: "Tadinho é o caralho!". Ponto final na discussão!

domingo, 28 de março de 2010

Como explicar o inexplicável?!

Olá pessoal!

Volto a escrever hoje, dia 28, meu aniversário, depois de um longo período de inatividade blogueira. Mas antes de ir ao tema principal, tenho que contar um pouco de minha vida escolar para vocês.

A história começa quando eu estava sendo alfabetizado, em 1990. Devido a minha paralisia cerebral, minha coordenação motora fina, ainda hoje, não é boa, que dirá 20 anos atrás. Em função disso, aprendi a ler e escrever utilizando uma máquina de escrever! Sempre tive a melhor caligrafia da turma e fazia a alegria da galera nas provas, quando a folha ia subindo... Foi assim até o terceiro ano do ensino médio. Na PUC, a máquina passou a ser usada apenas nas provas. Por causa das constantes mudanças de sala, copiava a matéria em um PDA com teclado. Salve a tecnologia!

Ao longo desses anos treinei a escrita manual com o único objetivo de ter uma assinatura. Afinal de contas era muito chato ter de sujar o dedo todas as vezes que precisava "assinar" algum documento, etc. Hoje, depois de muito suor (é, escrever faz minha mão transpirar mais que a escalada), tenho uma assinatura que combina as iniciais do meu nome.

Mas quem pensou que meus problemas estavam acabados, se enganou! E agora começo a explicar o título do post. Na última sexta-feira, saí do trabalho e fui direto pra rodoviária. Precisava chegar em Barra Mansa a tempo de ir ao cartório fazer um reconhecimento de firma para poder vender meu carro. Cheguei a tempo e fomos ver o que era preciso para reconhecer a firma. Um dos atendentes disse que era só assinar duas vezes num papel que tava tudo resolvido. Pedi para assinar sentado em uma cadeira para ter mais estabilidade. Me sentei, o cara me mostrou onde eu tinha que escrever e, rapidamente, fiz as duas assinaturas e devolvi o papel para que ele pudesse terminar de preencher o que faltava (nome completo, CPF, endereço, etc). Para minha surpresa, ele disse que não podia porque só eu poderia escrever naquele bendito papel! Contei a ele tudo o que vocês acabaram de ler. Que escrever manualmente é difícil, me cansa, a letra fica horrível, etc. Não o convenci e ele ainda veio com aquele papo "como ele não escreve?", "como é possível alguém assinar e não escrever?". Nisso, meus pais já estavam, assim como eu, indignados com a ignorância daquelas pessoas. Chegaram a perguntar quem era o responsável por mim, que completaria 26 anos dois dias depois, hoje! Depois de muito custo, o pessoal do cartório resolveu ligar pro tabelião, teoricamente, uma pessoa mais esclarecida. Teoricamente. Na prática ele manteve o discurso! Só eu poderia escrever!

Para não perder a viagem, puto da vida, peguei a porra do papel e escrevi! Demorei, a mão doeu, suou e a letra, como já era esperado, ficou uma merda! E eles... aceitaram!

Agora, pergunto a vocês: Como explicar o inexplicável?!

PS: Não foi a primeira e, provavelmente, não será a última! Uma coisa é certa, dessa vez não passará em branco!